quinta-feira, 22 de março de 2018

O Banco de Poder

Salvatore era um homem médio. Sem grandes aspirações, sem grande gosto pela música, sem grande fé num ser maior. Vivia passo a passo, terra a terra. Comprava as mercearias com o dinheiro que tinha e bebia um refresco quando estava calor. Funcionava na sociedade como funcionário público. Técnico de algo cinzento, colorido só mesmo pelo sol tímido de inverno. Via a vida com horizontes materialistas - o que está para lá do que vejo não existe ou não me interessa. Por isso mesmo era um humano pequeno, evidenciado pela sua estatura e postura. Moldava os dias conforme a necessidade, as ordens, o "tem de ser", o útil, o barato, o confortável, o moderado. Assim ia passeando ao domingo quando descansava.
Até um dia.
Nesse dia descobriu que podia querer. Que querer não mudava logo o mundo, mas também nada o impedia. Começou por conceptualizar a vontade. Ordenou e categorizou os seus desejos. Dirigiu-se a si próprio com assertividade e completou o raciocínio com um sorriso. Mostrou-se digno perante o seu espírito e nada lhe tirava isso. Só faltava pedir um empréstimo.
Desceu a rua, atravessou a estrada, cruzou a praça, voltou a atravessar a estrada, ignorou o mendigo, seguiu rua abaixo pelo lado do rio, atravessou para o outro lado para apanhar sol e finalmente chegou ao Banco. Este não era um banco normal. Era o Banco de Poder. Aqui, pessoas engravatadas circulavam, cheias de si, carregando pastas e documentos, tudo muito sério e a sério, com cores profundas nas paredes e o chão escorregadio da saliva dos bajuladores. Tudo isto era imponente perante Salvatore. A sua alma não se habituara a carregar tamanhos ornamentos para o dia a dia. As colunas gregas de mármore simbolizavam todo o esmagamento. Era tudo tão imenso.
Dirigiu-se ao balcão. Uma rapariga muito bonita, de cabelos vermelhos ondulados e um olhar igualmente avermelhado, olhou-o de alto a baixo com desprezo. Rapidamente o nó da gravata era posto em questão. Juntou-se a ela um homem muito alto, também ele muito elegante, vestido de preto.
Foi-lhe perguntado o que queria. Ele disse. Queria Poder. Perguntaram-lhe se já tinha tido vontade. Disse que sim. Perguntaram se já alguma vez tinha tido Poder na vida. Respondeu que não. Instalou-se a desconfiança. Concluíram que era então um "Último Homem". Respondeu envergonhado que sim. Foi-lhe pedido que preenchesse um formulário. E outro. E mais outro. E faltava só mais um. Salvatore perguntou se ia demorar muito mais para ter Poder. Foi-lhe respondido que como era só mais um entre muitos, ia ter de esperar na fila como ninguém. Ficou triste. Ninguém se importou com isso. O Poder parecia longe, cada vez mais longe a cada formulário.
Passadas horas, largas horas, foram ter com Salvatore à sala de espera aquecida pela respiração de quem lá esperava. Chamaram-no para ir preencher só mais um formulário numa salinha. Desanimado com a burocracia, foi com os ombros caídos. Mas lá foi. Chegou à sala e três homens vestidos de preto, muito altos, muito rudes, esperavam-no em pé. À frente deles uma mesa e um papel em cima. Foi-lhe pedido que este formulário assinasse com a sua caneta própria. Este destinava-se a certificar que Salvatore se comprometia a definir o Banco como o fundador do sentido da sua vontade e o mediador determinante para o seu cumprimento na vida.
Salvatore congelou. Afinal, ele não poderia nunca assumir uma mentira dessas. Quem construíra a sua vontade fora ele. Ele apenas tinha recorrido ao Banco para obter o Poder necessário para a tornar verdadeira.
Foi aí que percebeu.
Se ele não fosse capaz de tornar a sua vontade verdadeira por si, se era de facto o caso que precisava do Banco para realizar a sua criação, então também não era ele o verdadeiro criador. E com essa vida, uma determinada pela autoridade, pela imponência, pelo exterior, pela dívida, Salvatore jamais podia viver. Podia ser um homem médio, mas não era um castrado.
Saiu disparado da sala, do átrio, do edifício. Chegou aos jardins da entrada e respirou fundo. A consciência do seu dever para consigo próprio deu-lhe outro fôlego. Agora, já não precisava de empréstimos. Só precisava de si.
Voltou para casa menos em êxtase, mas com outra solidez. O tempo estava lento e o sol muito mais morno. Via tudo com outra calma. Os seus alicerces podiam estar em construção, porém tinham
agora outro chão. Um mais duro. Os olhos enchiam-se de lágrimas. Tinha-se finalmente percebido. Salvatore era agora orfão e também o seu próprio filho.
Chegado a casa, repousou na poltrona. Percebeu que era dono de si, da sua vontade, da sua criação, e que se renunciasse ao labor de construir o seu próprio Poder, nunca seria o Salvatore.
Dormiu mais descansado nessa noite e até cresceu 15 cm. No dia seguinte foi ver um filme ao cinema: "A Queda".
Até breve. 


terça-feira, 20 de março de 2018

Dos Politicamente (In)Correctos

Voltei.
Este mundo está cada vez mais irritante.
Não há manhã em que não abra o computador e não leve ora com a mais novíssima tendência feminista de pseudo-culpabilização do homem branco heterossexual, ora com a mais fresca redescoberta cavernosa e constrangedoramente ignorante dos grunhos alt-righteanos dos cafundos da internet e dos espaços de comentário.
Não há.
Não estou a exagerar.
Todos os dias que navego na internet vejo-me assombrado por imagens de leite maligno misturado com nostalgias da sedução neolítica. Todos os dias que abro o facebook (a única rede social que uso, uma vez que o instagram só serve mesmo para a criançada de todas as idades e o twitter morreu antes de nascer) vejo multidões a correrem desgrinhadas pelas avenidas dos comentários e das páginas e dos grupos a reclamarem mais um bocadinho de land neste mundo apocalíptico e infantil em que quem tem mais atenção é quem efectivamente chama mais por ela.
Perante isto que fazem vocês, meus amigos?
Eu rio-me.
Porque aqui na minha cadeira a luz do candeeiro continua a iluminar bem o meu Heidegger e o meu Camus, a electricidade felizmente também chega para a internet poder continuar a dar-me o The Very Best of Doors via youtube, consegui comprar uma pizza no mini preço (não morro a fome) e o hábito de fumar vai pseudo-preenchendo aquele vazio que não está bem lá.
Não me levo muito a sério. Nem levo este mundo muito a sério.
Mas que a ignorância irrita, ai isso irrita.
Até breve.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Andar de Metro

Sinto-me novamente preso. A urgência não provém de um qualquer raciocínio, mas de meras imposições contingenciais. Sou obrigado a atirar-me para um percurso, um trajecto definido, um sofrimento ligeiro mas certo. O terror da antecipação mimada.
Jogo-me, então, nos passos apressados e descoordenados, quase como se a pedir desculpa por ali estar, por tão pouca vontade ter de ali passar. Interfiro, assim, com o quotidiano dos honestos, dos responsáveis, dos juízes da democracia. A minha entrada no metro necessita de ser acutilante. A minha presença só pode ser notada pelos burocratas. Não quero ser multado. Viajo com a culpa boémia nos olhos. Típica do laissez-faire consciente. Corrijo a concentração e aproximo-me da porta. Agora começa o meu pesadelo. Ao primeiro som do mecanismo, brota o bafo de um dia inteiro. Um dia longo, com manhãs, horas de almoço, tardes atarefadas. O calor da respiração de todos os outros sufoca-me. Obrigam-me a respirar as frustrações e as ignorâncias de todos a quem nunca dei ou pedi nada. É a injustiça colossal do público, do aparelho: agora és todos. Tapo o nariz e sento-me no canto mais isolado, sossegado. A música dá algum sentido ao que acontece à minha volta. Mas os meus pulmões não ouvem Mulligan e sofre-se na mesma. Os olhares indesejados começam cedo na viagem. Uns julgam, outros apreciam com timidez, mas nenhum se sente em casa. A cada tentativa de encontrar um ponto fixo no chão que nos abra a porta, cruzamos mundos com uma vergonha partilhada, medida pelo hábito e a expectativa. A voz robótica soa ainda mais igual, mais infinita que ontem. O timbre nasalado torna-a eternamente desconfortável e desconfortável pela sua eternidade. É a dialéctica do transporte público. Com a esperança típica de um estrangeiro, olho para ver se é a minha paragem. Não é. Mesmo que fosse, a monotonia maquinal que me envolve nem me permitiria desfrutar da chegada. Quando chega, o meu corpo reage causalmente, aproximando-me da porta e do ar fresco que espero ter. A minha respiração torna-se sempre mais fraca na tensão do momento anterior, permeando-me ainda mais ao bafio e o mofo daquela nuvem que inunda a carruagem. Conto o dinheiro. Sinto o bilhete no bolso com a ponta dos dedos. Passo a mão pelo cabelo uma última vez e fujo disparado. Sei exactamente quanto medem os meus passos e, por isso, apresso-me a observar o espaço. A música muda e eu não gosto. Mudo quase sem ver. Espero pelo arrepio de passar a cancela. Mando mensagem. Subo as escadas. Mordo o cigarro levemente antes de o acender enquanto nos despedimos todos sem saber. Aos que descem e me olham com interrogação, eu respondo: "bem vindos ao inferno."
Até breve.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Da vida de Café

Acabou a silly season.
Se há barulho que me adocica o espírito é o rabujar da máquina de café das casas tradicionais. Nada de cápsulas. Falo do tambor metálico, da tímida ria de café que chora aos poucos até se tornar uma italiana ou um cheio, dos berros do vapor para quem pede pingado, ou só das colheres jogadas contra a mesa de quem, como eu, ainda põe açúcar.
As conversas de início do dia que se montam muitas vezes sem antecipação, entre velhos amigos ou velhos colegas ou só conhecidos que partilham um hábito. E aí está também parte da magia: a regularidade. Existe um sentimento de posse para quem pisa mais do que uma vez o mesmo sítio, passa-se a ter o direito a um cumprimento mais caloroso por parte da proprietária ou do empregado que está lá há meia dúzia de meses, mas integra a alma da casa como se estivesse lá desde sempre.
Eu não gosto de andar a pé. Gosto dos poisos. Mas gosto de me sentir confortável nas paragens. Sou assumidamente conservador no que toca a juízos de gosto a la Kant. Não quero conhecer as regras sempre diferentes, os preços de esplanada e de balcão, quando quero simplesmente respirar fundo e parar por alguns minutos. Nem os cigarros queimam tranquilos quando não posso deixar o estabelecimento com um desinteressado, mas caloroso, "até logo". É o mesmo desconforto que se tem quando sabemos que existe uma parte da cadeira molhada.
Para a escolha dos locais habituais há sempre um largo processo. Consoante as mudanças da vida, passamos por diferentes ruas, pisamos relvas de jardins diferentes e damos passeios mais ou menos longos, consoante a paciência e a disponibilidade. Mas de alguma maneira, quando saboreamos o conforto de alimentar um negócio específico, ficamos cegos à utilidade do percurso. Aquela esplanada particular fica mais perto que todas as outras. Depois de tanto analisar, experimentar, ver, o esforço de andar mais não é um esforço, é um prazer. É o prazer de ir a um sítio onde sabemos que nada nos vai irritar. Para alguém irritável como eu, isto é extremamente importante. Quantos euros não passei eu ver como mal gastos por uma simples merenda ressequida ou um café queimado.
Especulamos sobre a rentabilidade do negócio sempre que nos vamos embora, desejando que permaneça tudo igual para sempre ou pelo menos enquanto se lá for. É o desejo egoísta, ciumento, típico de quem aprecia a boa vida de café. Não a de um qualquer, mas a do que fazemos nosso. A cada dia suspiramos e esperamos que não se torne numa hamburgueria, numa padaria portuguesa ou só em mais uma loja de comida biológica.
Até breve.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O inferno dos medíocres

Ao estilo dos rappers que perguntam, retoricamente, nas suas músicas "quem quer ser pobre?", eu pergunto: quem quer ser medíocre?
Porque esta categoria é desconfortável. Mais desconfortável ainda quando deixa de ser o elo mais fraco do grupo e passa a ser o elo de ligação do grupo. A mediocridade não é o nível que se pretende superar, romper, é antes o nivelamento por baixo que é necessário ser feito para podermos conviver com o "instamundo" de hoje em dia. Hoje tudo é acelerado, descartável, básico. Assim como a identidade e a experiência. O melhor concerto do mundo no momento é só mais 125mb de espaço a ser apagado um mês mais tarde. A selfie que nos faz sentir validados pelos nossos pares num dia muito sombrio, cujo sol das redes sociais veio iluminar, é a mesma selfie que na manhã seguinte nem nos lembramos de ter tirado. Talvez daí tantas se repetirem.
Pior. Esta mediocridade não é fácil de ser rejeitada. Corremos riscos enormes de ser perseguidos pela polícia dos snobes que nos acusa de elitismo quando dizemos que os bons livros não são os livros que toda a gente lê ou que comparar o despacito a uma peça de Wagner é comparar uma mosca com uma águia: sim, os dois voam. Ou quando criticamos a apatia e a zombificação das massas, agarradas à necessidade de aprovação com os seus dedinhos gordurosos, escrevendo mensagens perfeitamente rudimentares num fundo sépia julgando que o Fernando Pessoa ia ficar muito orgulhoso.
Que raio de sociedade é esta? Que gente mesquinha é esta que oprime quem tenta ver acima da turba, espreitando em bicos de pés à procura de um pingo de razoabilidade ou sensatez? Que defensores da liberdade são estes que nunca leram Reich e que acham que as massas fazem sempre o que é melhor para si? Que circo é este que nos obriga a tapar o nariz sempre que chegamos a uma esplanada pelo cheiro a Édipo que fede das conversas sobre a amiga porca das fotografias porcas?
Que inferno do pequenino, do minúsculo, do ignorante, do oco é este? Porque eu já nem consigo respirar, seja da falta de ar que me dá quando ouço o esperto de gestão falar de como não lê mortos, seja do ar bafiento que inunda os corredores da política em forma de tweet.
Devemos estar preparados. O politicamente correcto é importante para consolidar valores e discursos relacionados com os direitos das minorias, com a igualdade de género, com os direitos políticos e sociais do liberalismo, mas não pode ser usado levianamente para nos impedir de sair do rebanho. Um rebanho obcecado com o "já", com o efémero, com a casca, imerso num mundo de facilidades virtuais e facilitismos virtualizáveis. Um rebanho reduzido a bocas, que ora consomem merda ora deitam cá para fora a merda que consumiram. Um rebanho que não tem ouvidos delicados nem um olhar atento, preferindo a duck face e o snapchat à sensualidade lenta do corpo humano. Mas eu sei. A nossa alma de esquerda necessita de ficar tranquila enquanto somos comunistas a partir do nosso escritório e por isso calamos as nossas bocas, lemos às escondidas e usamos auscultadores quando queremos ouvir Satie ou Ravel. Falamos bem da gentinha, compreendemos tudo numa espécie de Escola de Frankfurt de vão de escada e continuamos a nossa triunfante caminhada para a felicidade.
Eu gosto mais de estar sujo, mas ao menos ser autêntico. Detesto a mediocridade que as redes sociais materializam, dando a todos, aos mini trumps do 9gag, aos pseudo-empreendedores, às feminazi dos memes, aos castrados das selfies, aos esquerdalhos apaixonados pelo popularucho, aos do cabelo à bolo de arroz, aos hedonistas e aos futeboleiros um palco para poderem glorificar a sua mesquinhez.
Chamem-me elitista, mas eu não leio às escondidas nem pretendo estender a mão a este inferno.
Até breve
   

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Consumo e Libertação

Esse consumo frenético, insaciável, como um fluxo demasiado cómodo - é tão fácil aceitá-lo, acomodá-lo, incorporá-lo. Difícil é o caminho autêntico. Aquele em que nos jogamos para a frente sem travões, indo contra os pregos que perfuram do estômago ao céu da boca, olhando nos olhos do vazio.
Mas a liberdade dói. E ser livre é crescer. E crescer dói muito. É uma dor larga, esparramada sobre a vida, asfixiando cada quotidiano minúsculo. É uma perda. Perda de tudo. Mas um tudo que se deixa derreter nas pontas, dando azo e espaço para imaginar a superação desse esmagamento. Começa-se a adivinhar o sabor da vitória, do "finalmente livre". E uma tal delícia só pode ser escavada de areias sangrentas, gloriosamente napoleónicas no seu acutilante carácter a-histórico. É de sempre e para sempre. Será uma batalha áspera.
Esse consumo, essa negação do vazio, é anti-liberdade. Porque é doce, gordo, viscoso. Envolve-nos num mel emburrecedor, afastando-nos da luta pelo crescimento e pela libertação. Recusá-lo tem de ser uma certeza, tem de ganhar um estatuto categórico.
A liberdade custa.
Até breve

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Criação e estrutura

Todo o fluxo produzido, seja na linguagem, seja na bio-política, seja no inconsciente, é repetido e reconstruído. Os olhares que embandeiram significantes despóticos caem sempre na armadilha de fixar as categorias sem navegar primeiro na própria particularidade, perdendo o contacto com o problema fundamental: o void do sentido. Essa busca contínua, também ela um fluxo oriundo de uma máquina e orientado para uma máquina, que vê no absoluto um plano horizontal em que pode então construir, esquece que qualquer estrutura funciona como linhas entre pontos, sem faces mas com limites.
Nestes limites habitam as situações puramente contingenciais que abanam o edifício, obrigando-nos a repetir discursos numa nova organização, criando a nova descrição e ao mesmo tempo o contexto dessa descrição. A fixação é temporária, anti-metafísica e metafísica ao mesmo tempo, uma necessidade pré-reflexiva, mas vazia de conteúdo. Para si reclama apenas uma existência necessária, seja ela qual for.
Está é a obrigação filosófica que nos empurra e atira para o delírio da especulação. O melhor dos delírios. O desregulado, criador, contra a moral e contra a causalidade. Virado sempre do avesso, mostrando-se e afirmando-se de forma descentrada. As categorias não têm território, espalham-se ao longo do fluxo criador de conceitos, de sentidos, de jogos de linguagem.
Até breve.