Até quando vamos deixar que nos ponham a casa arder?
Podemos chamar-lhe o que quisermos. Liberalismo, Socialismo, Democracia, Demo-Liberalismo, Socialismo Democrático ou Social-Democracia. Aqui a referência não se encontra nas políticas concretas mas na luta que está na base de todas estas doutrinas. No motor que bombeia (e bombeou desde a Revolução Francesa) um fluxo imparável de coragem para um combate por sociedades melhores. Esse pano de fundo é comum. Esse pano de fundo não é da Esquerda nem da Direita. Esse pano de fundo é precisamente o que dá sentido a uma estrutura divisória entre esquerda e direita. E é a esse pano de fundo que a madame Le Pen e a sua contra-parte islâmica, o Daesh, querem pegar fogo. Sim, o Islamo-Fascismo que procura um retorno a um passado glorioso do Islão, que tem uma visão imperialista da Sharia e que jura guerra até à morte ao ocidente é a versão islâmica do nosso neo-nacionalismo cristão. Precisamente os que mais se advogam defensores da Europa são aqueles que contribuem para o fortalecimento dos seus inimigos e que mais pervertem e distorcem os valores que nos unem de Estocolmo a Sines e de Dublin a Nápoles. São duas faces da mesma moeda. São os dois o reflexo do falhanço do nosso sistema em ouvir as pessoas e chegar a elas. Seja pelo dogmatismo ignorante da direita seja pela ortodoxia desligada da realidade da esquerda. São os dois que advogam lutar contra o direito a cada um construir o seu sentido de família, são os dois que advogam um retorno a um pensamento cavernoso sobre a mulher, são os dois que advogam a uma destruição da liberdade formal e de um retorno à dinâmica mestre-servo, são os dois que lutam incansavelmente contra a liberdade de pensamento, são os dois que colocam entraves a tudo o que seja uma expressão de humanismo (com h minúsculo, porque não há abstracções universais quando falamos da vida dos comuns).
Até quando vamos deixar que nos prendam na dicotomia económica mais estado vs menos estado, por muito marxista que seja a intenção, mas que nos cega do incêndio que deflagra no quintal do Político?
Até quando vamos deixar que a casa em que construímos para lutar uns com os outros de acordo com as nossas regras, seja hipotecada em nome duma visão pseudo-orgânica dos povos, essencialista no pior dos sentidos e que rejeita todas as conquistas individuais e sociais que fazem de nós, europeus, ter tanto orgulho na nossa História?
Até quando vamos permitir que a segurança e os valores sejam termos exclusivos dos ultra-conservadores ignorantes que grunhem medo e recalcamento a cada chamada de atenção, seja no 4chan seja na sala oval?
Até quando vamos deixar que os erros e a arrogância de um outro imperialismo, o americano, sejam tomados como significante despótico de qualquer discussão sobre política ocidental e europeia?
Sejamos um pouco mais sérios, um pouco mais corajosos. Ou já todos se esqueceram que a luta contra o feudalismo começa no direito à discórdia e no papel fundamental do individualismo existencial?
Sejamos Anti-Fascistas, na sua versão mais global e mais profunda.
Até breve
quarta-feira, 24 de maio de 2017
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Existência(lismos)
Peço desculpa pelo atraso. O mundo não tem valor.
O que é que se quer dizer com isto?
O mundo é tudo o que acontece ("everything that is the case"). Mas este mundo não nos dá nada. Não posso olhar à volta e encontrar nas árvores, na carne, no olho, no cérebro, no mar, valor. Sou eu, eu que penso, eu que sinto, eu que estou preso à minha particularidade, que lhe dou sentido. A realidade objectiva, a realidade que a matemática e a lógica sustentam, não diz nada sobre o valor do mundo, nem me interessa falar nesse jogo de linguagem. Pois não é disso que estamos a falar. Estamos a observar o outro lado da realidade. O lado que permite que um mundo absurdo e caótico seja vivido. Há no meu movimento existencial uma projecção, uma soberana atribuição de significado ao que me rodeia. O espaço e o tempo são as coordenadas em que se joga. A ética e a estética não podem ser sujeitas a critérios de verdade analíticos. Todo este fluxo que parte do meu olhar e do meu pensamento, não nasce no exterior. Nasce a partir do exterior, obrigando-me a organizar o que é incompreensível.
Esta consciência não é o último estádio. Há mais lá para trás. E essa tal sala de arrumos da mente vive da linguagem, ou com uma semelhante estrutura, como diria Lacan. "Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo" - L.W. É nesta experiência limite que vive a atribuição de sentido. É no choque com o sem-sentido que surge o nosso papel. Somos atirados para uma série de experiências que só se tornam experiências quando as observamos de uma certa maneira.
Esta cadeira provoca-me estranheza, há um momento de desapego com a utilidade e a função social. Deixei de a ver como cadeira e passei a ver como qualquer-coisa-que-não-tem-nome. Eu, felizmente, posso olhar-me ao espelho ou ouvir o Outro, posso ver-me através do que vê, de forma a que não perca o trilho para o espírito. Mas quando saio de casa, não pode haver um espelho do espelho. Sem qualquer pedido prévio, ou sem assinar um contracto, é-me exigido que tudo o que acontece seja vivido como normal, como causal. Sou um autómato por necessidade que se programou a si próprio. Com a ajuda da ideologia claro, mas em última instância fui eu. Uma análise esquizofrénica a la Deleuze permite-me olhar para mim como uma máquina. Uma máquina que não pára de produzir, mesmo que eu não o queira. Não tenho outra hipótese. De que maneira pegaria numa flor, beberia um café, lia palavras? De que maneira poderia escolher uma camisa branca?
Se há lição que temos de retirar de toda a filosofia existencialista, é a de que vivemos numa prisão. Numa prisão criada por uma necessidade metafísica, a necessidade de existir no mundo.
Para que tudo aconteça no mundo, eu primeiro preciso de aceitar que o mundo não tem valor. Preciso de aceitar que estou condenado a ver o mundo da minha perspectiva. Estou condenado a ter uma perspectiva.
Depende de mim, sem ninguém me ter perguntado nada.
Até breve
O que é que se quer dizer com isto?
O mundo é tudo o que acontece ("everything that is the case"). Mas este mundo não nos dá nada. Não posso olhar à volta e encontrar nas árvores, na carne, no olho, no cérebro, no mar, valor. Sou eu, eu que penso, eu que sinto, eu que estou preso à minha particularidade, que lhe dou sentido. A realidade objectiva, a realidade que a matemática e a lógica sustentam, não diz nada sobre o valor do mundo, nem me interessa falar nesse jogo de linguagem. Pois não é disso que estamos a falar. Estamos a observar o outro lado da realidade. O lado que permite que um mundo absurdo e caótico seja vivido. Há no meu movimento existencial uma projecção, uma soberana atribuição de significado ao que me rodeia. O espaço e o tempo são as coordenadas em que se joga. A ética e a estética não podem ser sujeitas a critérios de verdade analíticos. Todo este fluxo que parte do meu olhar e do meu pensamento, não nasce no exterior. Nasce a partir do exterior, obrigando-me a organizar o que é incompreensível.
Esta consciência não é o último estádio. Há mais lá para trás. E essa tal sala de arrumos da mente vive da linguagem, ou com uma semelhante estrutura, como diria Lacan. "Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo" - L.W. É nesta experiência limite que vive a atribuição de sentido. É no choque com o sem-sentido que surge o nosso papel. Somos atirados para uma série de experiências que só se tornam experiências quando as observamos de uma certa maneira.
Esta cadeira provoca-me estranheza, há um momento de desapego com a utilidade e a função social. Deixei de a ver como cadeira e passei a ver como qualquer-coisa-que-não-tem-nome. Eu, felizmente, posso olhar-me ao espelho ou ouvir o Outro, posso ver-me através do que vê, de forma a que não perca o trilho para o espírito. Mas quando saio de casa, não pode haver um espelho do espelho. Sem qualquer pedido prévio, ou sem assinar um contracto, é-me exigido que tudo o que acontece seja vivido como normal, como causal. Sou um autómato por necessidade que se programou a si próprio. Com a ajuda da ideologia claro, mas em última instância fui eu. Uma análise esquizofrénica a la Deleuze permite-me olhar para mim como uma máquina. Uma máquina que não pára de produzir, mesmo que eu não o queira. Não tenho outra hipótese. De que maneira pegaria numa flor, beberia um café, lia palavras? De que maneira poderia escolher uma camisa branca?
Se há lição que temos de retirar de toda a filosofia existencialista, é a de que vivemos numa prisão. Numa prisão criada por uma necessidade metafísica, a necessidade de existir no mundo.
Para que tudo aconteça no mundo, eu primeiro preciso de aceitar que o mundo não tem valor. Preciso de aceitar que estou condenado a ver o mundo da minha perspectiva. Estou condenado a ter uma perspectiva.
Depende de mim, sem ninguém me ter perguntado nada.
Até breve
segunda-feira, 1 de maio de 2017
Dia Segundo
O edifício Europa. Outrora não fora mais do que é agora, mas também não se vive o apogeu. O tempo é mentiroso e a História nunca conta a história toda. Podemos sonhar, ser nostálgicos até, mas quem hoje nos tirou o tapete do chão nasceu neste jardim, não veio nem da Turquia nem da bolsa de Londres.
Vemos essa nuvem de ignorância singrar em França (de mãos dadas com os comunistas), Estados Unidos (mas não todos e nem todos assim tão unidos), Rússia e leste europeu (apesar de ser sempre uma outra atmosfera, quer queiramos quer não). A Holanda, a Inglaterra, a Alemanha, todos têm as suas migalhas. Mas não queiramos tratar os cães todos pelo mesmo nome. Há que ter brio nas lutas.
Não foi a burka, não foi o mercado, não foi a nação. Fomos nós. Fomos nós que perdemos o contacto com o nosso diamante em bruto. Fomos nós, nós que lemos tratados e livros e que tratámos dos livros como se eles fossem todos livres, que abandonámos a Europa. Deixámos as nossas bibliotecas serem invadidas de livros sobre o empreendedorismo, sobre as maravilhas da religião islâmica, sobre a importância de tratar os imigrantes como lixo. Deitámos fora o Lenine, o Estaline, o Trotsky, o Fidel, o Mao, o socialismo real - esses nunca tiveram espaço na nossa casa. Mas não restou nada. Esquecemos o caminho para a tipografia e aproveitámos o atalho para a Real Igreja da Ciência. Qual ciência? Ninguém sabe. Mas é a Grande Ciência portanto ela deverá saber quem é. Coitado do Comte! O Marx também tentou, mas não era por ali. Paulo Tunhas diz "excelente sociólogo, mas um péssimo filósofo". Vamos por onde então? Se não queremos igrejas, nem laboratórios, nem mesquitas, nem nações, nem comunismos, nem mercados?
Se calhar está na altura de pararmos de ler, para escrevermos. Se calhar está na altura de matarmos os nossos pais e avós, explicarmos aos fantasmas que eles só podem ser redimidos se forem abandonados ao seu período. Andamos a viver para os sonhos dos outros por falta de coragem de sonharmos os nossos próprios sonhos. Se está tudo tão estagnado como podem sequer pensar que têm uma resposta certa? Já para não falar na ambiguidade de falar de valor de verdade de uma tal proposição. Usa-se muito levianamente o certo e o errado. Tenham cuidado, nem tudo é Física.
Ficamos neste hiato. Neste quase lá. Eu sei que há um mínimo, não sou pretensioso ao ponto de dizer que tudo está no zero. Mas não me mintam. Não se mintam. Não há projecto. Não há sonho. Há cultura, muita. Música de qualidade, escrita incrível, grande cinema. Mas não há política. Vivemos num mundo de destros que insistem em escrever com uma mão esquerda que nunca foi sua.
Um pouco mais de coragem camaradas, obriguemos os nossos espíritos a voar os seus próprios ventos! Não queremos ser os Últimos dos Homens, nem queremos que o abismo nos engula no seu olhar. E já que termino com Nietzsche, "o que é bom para mim, muito provavelmente não será bom para o outro".
Até breve
Vemos essa nuvem de ignorância singrar em França (de mãos dadas com os comunistas), Estados Unidos (mas não todos e nem todos assim tão unidos), Rússia e leste europeu (apesar de ser sempre uma outra atmosfera, quer queiramos quer não). A Holanda, a Inglaterra, a Alemanha, todos têm as suas migalhas. Mas não queiramos tratar os cães todos pelo mesmo nome. Há que ter brio nas lutas.
Não foi a burka, não foi o mercado, não foi a nação. Fomos nós. Fomos nós que perdemos o contacto com o nosso diamante em bruto. Fomos nós, nós que lemos tratados e livros e que tratámos dos livros como se eles fossem todos livres, que abandonámos a Europa. Deixámos as nossas bibliotecas serem invadidas de livros sobre o empreendedorismo, sobre as maravilhas da religião islâmica, sobre a importância de tratar os imigrantes como lixo. Deitámos fora o Lenine, o Estaline, o Trotsky, o Fidel, o Mao, o socialismo real - esses nunca tiveram espaço na nossa casa. Mas não restou nada. Esquecemos o caminho para a tipografia e aproveitámos o atalho para a Real Igreja da Ciência. Qual ciência? Ninguém sabe. Mas é a Grande Ciência portanto ela deverá saber quem é. Coitado do Comte! O Marx também tentou, mas não era por ali. Paulo Tunhas diz "excelente sociólogo, mas um péssimo filósofo". Vamos por onde então? Se não queremos igrejas, nem laboratórios, nem mesquitas, nem nações, nem comunismos, nem mercados?
Se calhar está na altura de pararmos de ler, para escrevermos. Se calhar está na altura de matarmos os nossos pais e avós, explicarmos aos fantasmas que eles só podem ser redimidos se forem abandonados ao seu período. Andamos a viver para os sonhos dos outros por falta de coragem de sonharmos os nossos próprios sonhos. Se está tudo tão estagnado como podem sequer pensar que têm uma resposta certa? Já para não falar na ambiguidade de falar de valor de verdade de uma tal proposição. Usa-se muito levianamente o certo e o errado. Tenham cuidado, nem tudo é Física.
Ficamos neste hiato. Neste quase lá. Eu sei que há um mínimo, não sou pretensioso ao ponto de dizer que tudo está no zero. Mas não me mintam. Não se mintam. Não há projecto. Não há sonho. Há cultura, muita. Música de qualidade, escrita incrível, grande cinema. Mas não há política. Vivemos num mundo de destros que insistem em escrever com uma mão esquerda que nunca foi sua.
Um pouco mais de coragem camaradas, obriguemos os nossos espíritos a voar os seus próprios ventos! Não queremos ser os Últimos dos Homens, nem queremos que o abismo nos engula no seu olhar. E já que termino com Nietzsche, "o que é bom para mim, muito provavelmente não será bom para o outro".
Até breve
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