Sinto-me novamente preso. A urgência não provém de um qualquer raciocínio, mas de meras imposições contingenciais. Sou obrigado a atirar-me para um percurso, um trajecto definido, um sofrimento ligeiro mas certo. O terror da antecipação mimada.
Jogo-me, então, nos passos apressados e descoordenados, quase como se a pedir desculpa por ali estar, por tão pouca vontade ter de ali passar. Interfiro, assim, com o quotidiano dos honestos, dos responsáveis, dos juízes da democracia. A minha entrada no metro necessita de ser acutilante. A minha presença só pode ser notada pelos burocratas. Não quero ser multado. Viajo com a culpa boémia nos olhos. Típica do laissez-faire consciente. Corrijo a concentração e aproximo-me da porta. Agora começa o meu pesadelo. Ao primeiro som do mecanismo, brota o bafo de um dia inteiro. Um dia longo, com manhãs, horas de almoço, tardes atarefadas. O calor da respiração de todos os outros sufoca-me. Obrigam-me a respirar as frustrações e as ignorâncias de todos a quem nunca dei ou pedi nada. É a injustiça colossal do público, do aparelho: agora és todos. Tapo o nariz e sento-me no canto mais isolado, sossegado. A música dá algum sentido ao que acontece à minha volta. Mas os meus pulmões não ouvem Mulligan e sofre-se na mesma. Os olhares indesejados começam cedo na viagem. Uns julgam, outros apreciam com timidez, mas nenhum se sente em casa. A cada tentativa de encontrar um ponto fixo no chão que nos abra a porta, cruzamos mundos com uma vergonha partilhada, medida pelo hábito e a expectativa. A voz robótica soa ainda mais igual, mais infinita que ontem. O timbre nasalado torna-a eternamente desconfortável e desconfortável pela sua eternidade. É a dialéctica do transporte público. Com a esperança típica de um estrangeiro, olho para ver se é a minha paragem. Não é. Mesmo que fosse, a monotonia maquinal que me envolve nem me permitiria desfrutar da chegada. Quando chega, o meu corpo reage causalmente, aproximando-me da porta e do ar fresco que espero ter. A minha respiração torna-se sempre mais fraca na tensão do momento anterior, permeando-me ainda mais ao bafio e o mofo daquela nuvem que inunda a carruagem. Conto o dinheiro. Sinto o bilhete no bolso com a ponta dos dedos. Passo a mão pelo cabelo uma última vez e fujo disparado. Sei exactamente quanto medem os meus passos e, por isso, apresso-me a observar o espaço. A música muda e eu não gosto. Mudo quase sem ver. Espero pelo arrepio de passar a cancela. Mando mensagem. Subo as escadas. Mordo o cigarro levemente antes de o acender enquanto nos despedimos todos sem saber. Aos que descem e me olham com interrogação, eu respondo: "bem vindos ao inferno."
Até breve.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Da vida de Café
Acabou a silly season.
Se há barulho que me adocica o espírito é o rabujar da máquina de café das casas tradicionais. Nada de cápsulas. Falo do tambor metálico, da tímida ria de café que chora aos poucos até se tornar uma italiana ou um cheio, dos berros do vapor para quem pede pingado, ou só das colheres jogadas contra a mesa de quem, como eu, ainda põe açúcar.
As conversas de início do dia que se montam muitas vezes sem antecipação, entre velhos amigos ou velhos colegas ou só conhecidos que partilham um hábito. E aí está também parte da magia: a regularidade. Existe um sentimento de posse para quem pisa mais do que uma vez o mesmo sítio, passa-se a ter o direito a um cumprimento mais caloroso por parte da proprietária ou do empregado que está lá há meia dúzia de meses, mas integra a alma da casa como se estivesse lá desde sempre.
Eu não gosto de andar a pé. Gosto dos poisos. Mas gosto de me sentir confortável nas paragens. Sou assumidamente conservador no que toca a juízos de gosto a la Kant. Não quero conhecer as regras sempre diferentes, os preços de esplanada e de balcão, quando quero simplesmente respirar fundo e parar por alguns minutos. Nem os cigarros queimam tranquilos quando não posso deixar o estabelecimento com um desinteressado, mas caloroso, "até logo". É o mesmo desconforto que se tem quando sabemos que existe uma parte da cadeira molhada.
Para a escolha dos locais habituais há sempre um largo processo. Consoante as mudanças da vida, passamos por diferentes ruas, pisamos relvas de jardins diferentes e damos passeios mais ou menos longos, consoante a paciência e a disponibilidade. Mas de alguma maneira, quando saboreamos o conforto de alimentar um negócio específico, ficamos cegos à utilidade do percurso. Aquela esplanada particular fica mais perto que todas as outras. Depois de tanto analisar, experimentar, ver, o esforço de andar mais não é um esforço, é um prazer. É o prazer de ir a um sítio onde sabemos que nada nos vai irritar. Para alguém irritável como eu, isto é extremamente importante. Quantos euros não passei eu ver como mal gastos por uma simples merenda ressequida ou um café queimado.
Especulamos sobre a rentabilidade do negócio sempre que nos vamos embora, desejando que permaneça tudo igual para sempre ou pelo menos enquanto se lá for. É o desejo egoísta, ciumento, típico de quem aprecia a boa vida de café. Não a de um qualquer, mas a do que fazemos nosso. A cada dia suspiramos e esperamos que não se torne numa hamburgueria, numa padaria portuguesa ou só em mais uma loja de comida biológica.
Até breve.
Se há barulho que me adocica o espírito é o rabujar da máquina de café das casas tradicionais. Nada de cápsulas. Falo do tambor metálico, da tímida ria de café que chora aos poucos até se tornar uma italiana ou um cheio, dos berros do vapor para quem pede pingado, ou só das colheres jogadas contra a mesa de quem, como eu, ainda põe açúcar.
As conversas de início do dia que se montam muitas vezes sem antecipação, entre velhos amigos ou velhos colegas ou só conhecidos que partilham um hábito. E aí está também parte da magia: a regularidade. Existe um sentimento de posse para quem pisa mais do que uma vez o mesmo sítio, passa-se a ter o direito a um cumprimento mais caloroso por parte da proprietária ou do empregado que está lá há meia dúzia de meses, mas integra a alma da casa como se estivesse lá desde sempre.
Eu não gosto de andar a pé. Gosto dos poisos. Mas gosto de me sentir confortável nas paragens. Sou assumidamente conservador no que toca a juízos de gosto a la Kant. Não quero conhecer as regras sempre diferentes, os preços de esplanada e de balcão, quando quero simplesmente respirar fundo e parar por alguns minutos. Nem os cigarros queimam tranquilos quando não posso deixar o estabelecimento com um desinteressado, mas caloroso, "até logo". É o mesmo desconforto que se tem quando sabemos que existe uma parte da cadeira molhada.
Para a escolha dos locais habituais há sempre um largo processo. Consoante as mudanças da vida, passamos por diferentes ruas, pisamos relvas de jardins diferentes e damos passeios mais ou menos longos, consoante a paciência e a disponibilidade. Mas de alguma maneira, quando saboreamos o conforto de alimentar um negócio específico, ficamos cegos à utilidade do percurso. Aquela esplanada particular fica mais perto que todas as outras. Depois de tanto analisar, experimentar, ver, o esforço de andar mais não é um esforço, é um prazer. É o prazer de ir a um sítio onde sabemos que nada nos vai irritar. Para alguém irritável como eu, isto é extremamente importante. Quantos euros não passei eu ver como mal gastos por uma simples merenda ressequida ou um café queimado.
Especulamos sobre a rentabilidade do negócio sempre que nos vamos embora, desejando que permaneça tudo igual para sempre ou pelo menos enquanto se lá for. É o desejo egoísta, ciumento, típico de quem aprecia a boa vida de café. Não a de um qualquer, mas a do que fazemos nosso. A cada dia suspiramos e esperamos que não se torne numa hamburgueria, numa padaria portuguesa ou só em mais uma loja de comida biológica.
Até breve.
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