Todo o fluxo produzido, seja na linguagem, seja na bio-política, seja no inconsciente, é repetido e reconstruído. Os olhares que embandeiram significantes despóticos caem sempre na armadilha de fixar as categorias sem navegar primeiro na própria particularidade, perdendo o contacto com o problema fundamental: o void do sentido. Essa busca contínua, também ela um fluxo oriundo de uma máquina e orientado para uma máquina, que vê no absoluto um plano horizontal em que pode então construir, esquece que qualquer estrutura funciona como linhas entre pontos, sem faces mas com limites.
Nestes limites habitam as situações puramente contingenciais que abanam o edifício, obrigando-nos a repetir discursos numa nova organização, criando a nova descrição e ao mesmo tempo o contexto dessa descrição. A fixação é temporária, anti-metafísica e metafísica ao mesmo tempo, uma necessidade pré-reflexiva, mas vazia de conteúdo. Para si reclama apenas uma existência necessária, seja ela qual for.
Está é a obrigação filosófica que nos empurra e atira para o delírio da especulação. O melhor dos delírios. O desregulado, criador, contra a moral e contra a causalidade. Virado sempre do avesso, mostrando-se e afirmando-se de forma descentrada. As categorias não têm território, espalham-se ao longo do fluxo criador de conceitos, de sentidos, de jogos de linguagem.
Até breve.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
domingo, 4 de junho de 2017
Soug Dtamper
Gosto muito de House of Cards. Não tem pretensões de ser realista nem de glorificar o politiquismo americano. É uma obra cinematográfica, tecnicamente evoluída, com uma história mirabolante e digna de tela. Para não falar na elegância sombria de Frank e Claire Underwood.
Mas há uma outra personagem muito mais cavernosa, uma com que ninguém se identifica pela sua insuportabilidade, uma personagem que nos obriga a confrontar com o núcleo negativo da nossa identidade: Doug Stamper.
Esta é uma personagem privada de qualquer substância existencial, a sua pessoa é vazia ontologicamente, articulando esse vazio num funcionamento mecânico de constante procura pela satisfação de desejos do presidente, sejam eles quais forem. Neste seu papel radicalmente maquinal, ele é descaradamente o braço do presidente, no sentido mais amplo da metáfora. Ele é literalmente um braço, um membro, uma parte integrante dum organismo que não desempenha qualquer função determinante para a identidade desse organismo. É um músculo, algo nervoso e comandado, em labor constante que só cessa quando há uma ordem - "vai para casa Doug, vê se descansas". Um dos exemplos mais claros desse vazio é a ausência de relações pessoais significativas na sua vida. Doug não tem amigos, não tem filhos, não é casado. Trabalha 24 horas sobre 24 horas, comendo onde der e dormindo onde puder, apesar de possuir todos os confortos materiais que um salário de chief of staff garante. Outro exemplo seria a sua postura corporal: coloca-se muitas vezes perto da porta de mãos entrelaçadas à frente ou simplesmente caídas, nunca carrega nenhuma pasta, encontra-se sempre pronto para a acção, como se estivesse sempre em constante estado de alerta para começar a correr e ir resolver mais um problema dos Underwood. Há nele uma prontidão constante, uma disponibilidade frenética, um sempre-ali. Mas ao contrário do que tudo isto possa parecer, Doug não é subserviente. A sua postura não é de beijar a mão de Frank, não o bajula, não corre atrás dele com o intuito de o agradar. Para Doug, tudo o que ele faz é feito por lealdade, uma lealdade obscura, uma partilha de algo muito obstinado e muito negro, uma ambição a que os dois se comprometeram mas que é ele quem carrega a sua carantonha, deixando que Frank possa ter a postura mais cínica e desinteressada. É Doug que materializa todos os passos de Frank nos bastidores, é ele quem absorve com a simbologia dos jogos maquiavélicos e criminosos. Ele é o fantasma de Frank. No sentido em que ele é o motor sem cara, absoluto e não contingencial. Ele representa a máquina de produção desejante do nosso Real identitário, o corpo sem orgãos. Por isso é que ele faz tão parte de Frank como Frank dele mesmo - ele é o corpo que se sacrificou. Essa é também a razão para não se preocupar com mais nada a não ser a lealdade. Doug sabe que não há um Underwood sem ele. Não exclusivamente por ser ele quem "mete as mãos na massa" mas também porque ele é o elemento ontológico que nos dá a nós espectadores, e a Frank, a possibilidade de não nos confrontarmos com o núcleo Real da nossa identidade. Ele leva com essa lama por nós, de bom grado. Mas isto coloca-nos a nós numa prisão: se Doug não existir, eu não serei capaz de me confrontar com quem realmente sou e a minha percepção de mim mesmo desintegrar-se-á. Não será esta a prisão em que vivemos actualmente? Precisamos dos E.U.A. com boots on the ground no médio oriente para podermos ser a favor da paz, precisamos da ditadura do Maduro na Venezuela para continuar a dizer que o socialismo "não é bem aquilo", precisamos de pintar os terroristas como loucos ou radicais para os incorporarmos nas nossas categorias e assim desculparmos o Islão à boa moda "multiculturaleira". Nós precisamos do bode expiatório, do fantasma, porque o Real é insuportável.
De que serve esta consciência? De que serve termos conhecimento da estrutura da nossa subjectividade? Vida autêntica.
Até breve.
Mas há uma outra personagem muito mais cavernosa, uma com que ninguém se identifica pela sua insuportabilidade, uma personagem que nos obriga a confrontar com o núcleo negativo da nossa identidade: Doug Stamper.
Esta é uma personagem privada de qualquer substância existencial, a sua pessoa é vazia ontologicamente, articulando esse vazio num funcionamento mecânico de constante procura pela satisfação de desejos do presidente, sejam eles quais forem. Neste seu papel radicalmente maquinal, ele é descaradamente o braço do presidente, no sentido mais amplo da metáfora. Ele é literalmente um braço, um membro, uma parte integrante dum organismo que não desempenha qualquer função determinante para a identidade desse organismo. É um músculo, algo nervoso e comandado, em labor constante que só cessa quando há uma ordem - "vai para casa Doug, vê se descansas". Um dos exemplos mais claros desse vazio é a ausência de relações pessoais significativas na sua vida. Doug não tem amigos, não tem filhos, não é casado. Trabalha 24 horas sobre 24 horas, comendo onde der e dormindo onde puder, apesar de possuir todos os confortos materiais que um salário de chief of staff garante. Outro exemplo seria a sua postura corporal: coloca-se muitas vezes perto da porta de mãos entrelaçadas à frente ou simplesmente caídas, nunca carrega nenhuma pasta, encontra-se sempre pronto para a acção, como se estivesse sempre em constante estado de alerta para começar a correr e ir resolver mais um problema dos Underwood. Há nele uma prontidão constante, uma disponibilidade frenética, um sempre-ali. Mas ao contrário do que tudo isto possa parecer, Doug não é subserviente. A sua postura não é de beijar a mão de Frank, não o bajula, não corre atrás dele com o intuito de o agradar. Para Doug, tudo o que ele faz é feito por lealdade, uma lealdade obscura, uma partilha de algo muito obstinado e muito negro, uma ambição a que os dois se comprometeram mas que é ele quem carrega a sua carantonha, deixando que Frank possa ter a postura mais cínica e desinteressada. É Doug que materializa todos os passos de Frank nos bastidores, é ele quem absorve com a simbologia dos jogos maquiavélicos e criminosos. Ele é o fantasma de Frank. No sentido em que ele é o motor sem cara, absoluto e não contingencial. Ele representa a máquina de produção desejante do nosso Real identitário, o corpo sem orgãos. Por isso é que ele faz tão parte de Frank como Frank dele mesmo - ele é o corpo que se sacrificou. Essa é também a razão para não se preocupar com mais nada a não ser a lealdade. Doug sabe que não há um Underwood sem ele. Não exclusivamente por ser ele quem "mete as mãos na massa" mas também porque ele é o elemento ontológico que nos dá a nós espectadores, e a Frank, a possibilidade de não nos confrontarmos com o núcleo Real da nossa identidade. Ele leva com essa lama por nós, de bom grado. Mas isto coloca-nos a nós numa prisão: se Doug não existir, eu não serei capaz de me confrontar com quem realmente sou e a minha percepção de mim mesmo desintegrar-se-á. Não será esta a prisão em que vivemos actualmente? Precisamos dos E.U.A. com boots on the ground no médio oriente para podermos ser a favor da paz, precisamos da ditadura do Maduro na Venezuela para continuar a dizer que o socialismo "não é bem aquilo", precisamos de pintar os terroristas como loucos ou radicais para os incorporarmos nas nossas categorias e assim desculparmos o Islão à boa moda "multiculturaleira". Nós precisamos do bode expiatório, do fantasma, porque o Real é insuportável.
De que serve esta consciência? De que serve termos conhecimento da estrutura da nossa subjectividade? Vida autêntica.
Até breve.
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