Acabou a silly season.
Se há barulho que me adocica o espírito é o rabujar da máquina de café das casas tradicionais. Nada de cápsulas. Falo do tambor metálico, da tímida ria de café que chora aos poucos até se tornar uma italiana ou um cheio, dos berros do vapor para quem pede pingado, ou só das colheres jogadas contra a mesa de quem, como eu, ainda põe açúcar.
As conversas de início do dia que se montam muitas vezes sem antecipação, entre velhos amigos ou velhos colegas ou só conhecidos que partilham um hábito. E aí está também parte da magia: a regularidade. Existe um sentimento de posse para quem pisa mais do que uma vez o mesmo sítio, passa-se a ter o direito a um cumprimento mais caloroso por parte da proprietária ou do empregado que está lá há meia dúzia de meses, mas integra a alma da casa como se estivesse lá desde sempre.
Eu não gosto de andar a pé. Gosto dos poisos. Mas gosto de me sentir confortável nas paragens. Sou assumidamente conservador no que toca a juízos de gosto a la Kant. Não quero conhecer as regras sempre diferentes, os preços de esplanada e de balcão, quando quero simplesmente respirar fundo e parar por alguns minutos. Nem os cigarros queimam tranquilos quando não posso deixar o estabelecimento com um desinteressado, mas caloroso, "até logo". É o mesmo desconforto que se tem quando sabemos que existe uma parte da cadeira molhada.
Para a escolha dos locais habituais há sempre um largo processo. Consoante as mudanças da vida, passamos por diferentes ruas, pisamos relvas de jardins diferentes e damos passeios mais ou menos longos, consoante a paciência e a disponibilidade. Mas de alguma maneira, quando saboreamos o conforto de alimentar um negócio específico, ficamos cegos à utilidade do percurso. Aquela esplanada particular fica mais perto que todas as outras. Depois de tanto analisar, experimentar, ver, o esforço de andar mais não é um esforço, é um prazer. É o prazer de ir a um sítio onde sabemos que nada nos vai irritar. Para alguém irritável como eu, isto é extremamente importante. Quantos euros não passei eu ver como mal gastos por uma simples merenda ressequida ou um café queimado.
Especulamos sobre a rentabilidade do negócio sempre que nos vamos embora, desejando que permaneça tudo igual para sempre ou pelo menos enquanto se lá for. É o desejo egoísta, ciumento, típico de quem aprecia a boa vida de café. Não a de um qualquer, mas a do que fazemos nosso. A cada dia suspiramos e esperamos que não se torne numa hamburgueria, numa padaria portuguesa ou só em mais uma loja de comida biológica.
Até breve.
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