sexta-feira, 21 de julho de 2017

O inferno dos medíocres

Ao estilo dos rappers que perguntam, retoricamente, nas suas músicas "quem quer ser pobre?", eu pergunto: quem quer ser medíocre?
Porque esta categoria é desconfortável. Mais desconfortável ainda quando deixa de ser o elo mais fraco do grupo e passa a ser o elo de ligação do grupo. A mediocridade não é o nível que se pretende superar, romper, é antes o nivelamento por baixo que é necessário ser feito para podermos conviver com o "instamundo" de hoje em dia. Hoje tudo é acelerado, descartável, básico. Assim como a identidade e a experiência. O melhor concerto do mundo no momento é só mais 125mb de espaço a ser apagado um mês mais tarde. A selfie que nos faz sentir validados pelos nossos pares num dia muito sombrio, cujo sol das redes sociais veio iluminar, é a mesma selfie que na manhã seguinte nem nos lembramos de ter tirado. Talvez daí tantas se repetirem.
Pior. Esta mediocridade não é fácil de ser rejeitada. Corremos riscos enormes de ser perseguidos pela polícia dos snobes que nos acusa de elitismo quando dizemos que os bons livros não são os livros que toda a gente lê ou que comparar o despacito a uma peça de Wagner é comparar uma mosca com uma águia: sim, os dois voam. Ou quando criticamos a apatia e a zombificação das massas, agarradas à necessidade de aprovação com os seus dedinhos gordurosos, escrevendo mensagens perfeitamente rudimentares num fundo sépia julgando que o Fernando Pessoa ia ficar muito orgulhoso.
Que raio de sociedade é esta? Que gente mesquinha é esta que oprime quem tenta ver acima da turba, espreitando em bicos de pés à procura de um pingo de razoabilidade ou sensatez? Que defensores da liberdade são estes que nunca leram Reich e que acham que as massas fazem sempre o que é melhor para si? Que circo é este que nos obriga a tapar o nariz sempre que chegamos a uma esplanada pelo cheiro a Édipo que fede das conversas sobre a amiga porca das fotografias porcas?
Que inferno do pequenino, do minúsculo, do ignorante, do oco é este? Porque eu já nem consigo respirar, seja da falta de ar que me dá quando ouço o esperto de gestão falar de como não lê mortos, seja do ar bafiento que inunda os corredores da política em forma de tweet.
Devemos estar preparados. O politicamente correcto é importante para consolidar valores e discursos relacionados com os direitos das minorias, com a igualdade de género, com os direitos políticos e sociais do liberalismo, mas não pode ser usado levianamente para nos impedir de sair do rebanho. Um rebanho obcecado com o "já", com o efémero, com a casca, imerso num mundo de facilidades virtuais e facilitismos virtualizáveis. Um rebanho reduzido a bocas, que ora consomem merda ora deitam cá para fora a merda que consumiram. Um rebanho que não tem ouvidos delicados nem um olhar atento, preferindo a duck face e o snapchat à sensualidade lenta do corpo humano. Mas eu sei. A nossa alma de esquerda necessita de ficar tranquila enquanto somos comunistas a partir do nosso escritório e por isso calamos as nossas bocas, lemos às escondidas e usamos auscultadores quando queremos ouvir Satie ou Ravel. Falamos bem da gentinha, compreendemos tudo numa espécie de Escola de Frankfurt de vão de escada e continuamos a nossa triunfante caminhada para a felicidade.
Eu gosto mais de estar sujo, mas ao menos ser autêntico. Detesto a mediocridade que as redes sociais materializam, dando a todos, aos mini trumps do 9gag, aos pseudo-empreendedores, às feminazi dos memes, aos castrados das selfies, aos esquerdalhos apaixonados pelo popularucho, aos do cabelo à bolo de arroz, aos hedonistas e aos futeboleiros um palco para poderem glorificar a sua mesquinhez.
Chamem-me elitista, mas eu não leio às escondidas nem pretendo estender a mão a este inferno.
Até breve
   

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Consumo e Libertação

Esse consumo frenético, insaciável, como um fluxo demasiado cómodo - é tão fácil aceitá-lo, acomodá-lo, incorporá-lo. Difícil é o caminho autêntico. Aquele em que nos jogamos para a frente sem travões, indo contra os pregos que perfuram do estômago ao céu da boca, olhando nos olhos do vazio.
Mas a liberdade dói. E ser livre é crescer. E crescer dói muito. É uma dor larga, esparramada sobre a vida, asfixiando cada quotidiano minúsculo. É uma perda. Perda de tudo. Mas um tudo que se deixa derreter nas pontas, dando azo e espaço para imaginar a superação desse esmagamento. Começa-se a adivinhar o sabor da vitória, do "finalmente livre". E uma tal delícia só pode ser escavada de areias sangrentas, gloriosamente napoleónicas no seu acutilante carácter a-histórico. É de sempre e para sempre. Será uma batalha áspera.
Esse consumo, essa negação do vazio, é anti-liberdade. Porque é doce, gordo, viscoso. Envolve-nos num mel emburrecedor, afastando-nos da luta pelo crescimento e pela libertação. Recusá-lo tem de ser uma certeza, tem de ganhar um estatuto categórico.
A liberdade custa.
Até breve