quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Andar de Metro

Sinto-me novamente preso. A urgência não provém de um qualquer raciocínio, mas de meras imposições contingenciais. Sou obrigado a atirar-me para um percurso, um trajecto definido, um sofrimento ligeiro mas certo. O terror da antecipação mimada.
Jogo-me, então, nos passos apressados e descoordenados, quase como se a pedir desculpa por ali estar, por tão pouca vontade ter de ali passar. Interfiro, assim, com o quotidiano dos honestos, dos responsáveis, dos juízes da democracia. A minha entrada no metro necessita de ser acutilante. A minha presença só pode ser notada pelos burocratas. Não quero ser multado. Viajo com a culpa boémia nos olhos. Típica do laissez-faire consciente. Corrijo a concentração e aproximo-me da porta. Agora começa o meu pesadelo. Ao primeiro som do mecanismo, brota o bafo de um dia inteiro. Um dia longo, com manhãs, horas de almoço, tardes atarefadas. O calor da respiração de todos os outros sufoca-me. Obrigam-me a respirar as frustrações e as ignorâncias de todos a quem nunca dei ou pedi nada. É a injustiça colossal do público, do aparelho: agora és todos. Tapo o nariz e sento-me no canto mais isolado, sossegado. A música dá algum sentido ao que acontece à minha volta. Mas os meus pulmões não ouvem Mulligan e sofre-se na mesma. Os olhares indesejados começam cedo na viagem. Uns julgam, outros apreciam com timidez, mas nenhum se sente em casa. A cada tentativa de encontrar um ponto fixo no chão que nos abra a porta, cruzamos mundos com uma vergonha partilhada, medida pelo hábito e a expectativa. A voz robótica soa ainda mais igual, mais infinita que ontem. O timbre nasalado torna-a eternamente desconfortável e desconfortável pela sua eternidade. É a dialéctica do transporte público. Com a esperança típica de um estrangeiro, olho para ver se é a minha paragem. Não é. Mesmo que fosse, a monotonia maquinal que me envolve nem me permitiria desfrutar da chegada. Quando chega, o meu corpo reage causalmente, aproximando-me da porta e do ar fresco que espero ter. A minha respiração torna-se sempre mais fraca na tensão do momento anterior, permeando-me ainda mais ao bafio e o mofo daquela nuvem que inunda a carruagem. Conto o dinheiro. Sinto o bilhete no bolso com a ponta dos dedos. Passo a mão pelo cabelo uma última vez e fujo disparado. Sei exactamente quanto medem os meus passos e, por isso, apresso-me a observar o espaço. A música muda e eu não gosto. Mudo quase sem ver. Espero pelo arrepio de passar a cancela. Mando mensagem. Subo as escadas. Mordo o cigarro levemente antes de o acender enquanto nos despedimos todos sem saber. Aos que descem e me olham com interrogação, eu respondo: "bem vindos ao inferno."
Até breve.

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