Gosto muito de House of Cards. Não tem pretensões de ser realista nem de glorificar o politiquismo americano. É uma obra cinematográfica, tecnicamente evoluída, com uma história mirabolante e digna de tela. Para não falar na elegância sombria de Frank e Claire Underwood.
Mas há uma outra personagem muito mais cavernosa, uma com que ninguém se identifica pela sua insuportabilidade, uma personagem que nos obriga a confrontar com o núcleo negativo da nossa identidade: Doug Stamper.
Esta é uma personagem privada de qualquer substância existencial, a sua pessoa é vazia ontologicamente, articulando esse vazio num funcionamento mecânico de constante procura pela satisfação de desejos do presidente, sejam eles quais forem. Neste seu papel radicalmente maquinal, ele é descaradamente o braço do presidente, no sentido mais amplo da metáfora. Ele é literalmente um braço, um membro, uma parte integrante dum organismo que não desempenha qualquer função determinante para a identidade desse organismo. É um músculo, algo nervoso e comandado, em labor constante que só cessa quando há uma ordem - "vai para casa Doug, vê se descansas". Um dos exemplos mais claros desse vazio é a ausência de relações pessoais significativas na sua vida. Doug não tem amigos, não tem filhos, não é casado. Trabalha 24 horas sobre 24 horas, comendo onde der e dormindo onde puder, apesar de possuir todos os confortos materiais que um salário de chief of staff garante. Outro exemplo seria a sua postura corporal: coloca-se muitas vezes perto da porta de mãos entrelaçadas à frente ou simplesmente caídas, nunca carrega nenhuma pasta, encontra-se sempre pronto para a acção, como se estivesse sempre em constante estado de alerta para começar a correr e ir resolver mais um problema dos Underwood. Há nele uma prontidão constante, uma disponibilidade frenética, um sempre-ali. Mas ao contrário do que tudo isto possa parecer, Doug não é subserviente. A sua postura não é de beijar a mão de Frank, não o bajula, não corre atrás dele com o intuito de o agradar. Para Doug, tudo o que ele faz é feito por lealdade, uma lealdade obscura, uma partilha de algo muito obstinado e muito negro, uma ambição a que os dois se comprometeram mas que é ele quem carrega a sua carantonha, deixando que Frank possa ter a postura mais cínica e desinteressada. É Doug que materializa todos os passos de Frank nos bastidores, é ele quem absorve com a simbologia dos jogos maquiavélicos e criminosos. Ele é o fantasma de Frank. No sentido em que ele é o motor sem cara, absoluto e não contingencial. Ele representa a máquina de produção desejante do nosso Real identitário, o corpo sem orgãos. Por isso é que ele faz tão parte de Frank como Frank dele mesmo - ele é o corpo que se sacrificou. Essa é também a razão para não se preocupar com mais nada a não ser a lealdade. Doug sabe que não há um Underwood sem ele. Não exclusivamente por ser ele quem "mete as mãos na massa" mas também porque ele é o elemento ontológico que nos dá a nós espectadores, e a Frank, a possibilidade de não nos confrontarmos com o núcleo Real da nossa identidade. Ele leva com essa lama por nós, de bom grado. Mas isto coloca-nos a nós numa prisão: se Doug não existir, eu não serei capaz de me confrontar com quem realmente sou e a minha percepção de mim mesmo desintegrar-se-á. Não será esta a prisão em que vivemos actualmente? Precisamos dos E.U.A. com boots on the ground no médio oriente para podermos ser a favor da paz, precisamos da ditadura do Maduro na Venezuela para continuar a dizer que o socialismo "não é bem aquilo", precisamos de pintar os terroristas como loucos ou radicais para os incorporarmos nas nossas categorias e assim desculparmos o Islão à boa moda "multiculturaleira". Nós precisamos do bode expiatório, do fantasma, porque o Real é insuportável.
De que serve esta consciência? De que serve termos conhecimento da estrutura da nossa subjectividade? Vida autêntica.
Até breve.
Ah Ricardo...que texto tão bem escrito! E que me faz também lembrar "O Arranca Corações" de Boris Vian, em que o barqueiro anda pelo lago da imundície humana a 'incorporar' os mais vis pecados simbolizados pelos restos viscerais que ali flutuam...teces em tom fluido e diga-se, magistralmente, essa analogia com a nossa humana cobardia em deixar 'alguém' ou 'alguns' serem os bodes expiatórios instrumentalizados dos nossos receios em enfrentar o insuportável. Ergo a minha taça ao teu texto e a essa Vida Autêntica que urge construir!
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