quarta-feira, 10 de maio de 2017

Existência(lismos)

Peço desculpa pelo atraso. O mundo não tem valor.
O que é que se quer dizer com isto?
O mundo é tudo o que acontece ("everything that is the case"). Mas este mundo não nos dá nada. Não posso olhar à volta e encontrar nas árvores, na carne, no olho, no cérebro, no mar, valor. Sou eu, eu que penso, eu que sinto, eu que estou preso à minha particularidade, que lhe dou sentido. A realidade objectiva, a realidade que a matemática e a lógica sustentam, não diz nada sobre o valor do mundo, nem me interessa falar nesse jogo de linguagem. Pois não é disso que estamos a falar. Estamos a observar o outro lado da realidade. O lado que permite que um mundo absurdo e caótico seja vivido. Há no meu movimento existencial uma projecção, uma soberana atribuição de significado ao que me rodeia. O espaço e o tempo são as coordenadas em que se joga. A ética e a estética não podem ser sujeitas a critérios de verdade analíticos. Todo este fluxo que parte do meu olhar e do meu pensamento, não nasce no exterior. Nasce a partir do exterior, obrigando-me a organizar o que é incompreensível.
Esta consciência não é o último estádio. Há mais lá para trás. E essa tal sala de arrumos da mente vive da linguagem, ou com uma semelhante estrutura, como diria Lacan. "Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo" - L.W. É nesta experiência limite que vive a atribuição de sentido. É no choque com o sem-sentido que surge o nosso papel. Somos atirados para uma série de experiências que só se tornam experiências quando as observamos de uma certa maneira.
Esta cadeira provoca-me estranheza, há um momento de desapego com a utilidade e a função social. Deixei de a ver como cadeira e passei a ver como qualquer-coisa-que-não-tem-nome. Eu, felizmente, posso olhar-me ao espelho ou ouvir o Outro, posso ver-me através do que vê, de forma a que não perca o trilho para o espírito. Mas quando saio de casa, não pode haver um espelho do espelho. Sem qualquer pedido prévio, ou sem assinar um contracto, é-me exigido que tudo o que acontece seja vivido como normal, como causal. Sou um autómato por necessidade que se programou a si próprio. Com a ajuda da ideologia claro, mas em última instância fui eu. Uma análise esquizofrénica a la Deleuze permite-me olhar para mim como uma máquina. Uma máquina que não pára de produzir, mesmo que eu não o queira. Não tenho outra hipótese. De que maneira pegaria numa flor, beberia um café, lia palavras? De que maneira poderia escolher uma camisa branca?
Se há lição que temos de retirar de toda a filosofia existencialista, é a de que vivemos numa prisão. Numa prisão criada por uma necessidade metafísica, a necessidade de existir no mundo.
Para que tudo aconteça no mundo, eu primeiro preciso de aceitar que o mundo não tem valor. Preciso de aceitar que estou condenado a ver o mundo da minha perspectiva. Estou condenado a ter uma perspectiva.
Depende de mim, sem ninguém me ter perguntado nada.
Até breve

1 comentário:

  1. Excelente escrita, brilhante encadeado no discurso que torna mais compreensível esta estranheza a que nascemos condenados...mas a que podemos (se quisermos) atribuir um sentido! Parabéns Ricardo

    ResponderEliminar