O edifício Europa. Outrora não fora mais do que é agora, mas também não se vive o apogeu. O tempo é mentiroso e a História nunca conta a história toda. Podemos sonhar, ser nostálgicos até, mas quem hoje nos tirou o tapete do chão nasceu neste jardim, não veio nem da Turquia nem da bolsa de Londres.
Vemos essa nuvem de ignorância singrar em França (de mãos dadas com os comunistas), Estados Unidos (mas não todos e nem todos assim tão unidos), Rússia e leste europeu (apesar de ser sempre uma outra atmosfera, quer queiramos quer não). A Holanda, a Inglaterra, a Alemanha, todos têm as suas migalhas. Mas não queiramos tratar os cães todos pelo mesmo nome. Há que ter brio nas lutas.
Não foi a burka, não foi o mercado, não foi a nação. Fomos nós. Fomos nós que perdemos o contacto com o nosso diamante em bruto. Fomos nós, nós que lemos tratados e livros e que tratámos dos livros como se eles fossem todos livres, que abandonámos a Europa. Deixámos as nossas bibliotecas serem invadidas de livros sobre o empreendedorismo, sobre as maravilhas da religião islâmica, sobre a importância de tratar os imigrantes como lixo. Deitámos fora o Lenine, o Estaline, o Trotsky, o Fidel, o Mao, o socialismo real - esses nunca tiveram espaço na nossa casa. Mas não restou nada. Esquecemos o caminho para a tipografia e aproveitámos o atalho para a Real Igreja da Ciência. Qual ciência? Ninguém sabe. Mas é a Grande Ciência portanto ela deverá saber quem é. Coitado do Comte! O Marx também tentou, mas não era por ali. Paulo Tunhas diz "excelente sociólogo, mas um péssimo filósofo". Vamos por onde então? Se não queremos igrejas, nem laboratórios, nem mesquitas, nem nações, nem comunismos, nem mercados?
Se calhar está na altura de pararmos de ler, para escrevermos. Se calhar está na altura de matarmos os nossos pais e avós, explicarmos aos fantasmas que eles só podem ser redimidos se forem abandonados ao seu período. Andamos a viver para os sonhos dos outros por falta de coragem de sonharmos os nossos próprios sonhos. Se está tudo tão estagnado como podem sequer pensar que têm uma resposta certa? Já para não falar na ambiguidade de falar de valor de verdade de uma tal proposição. Usa-se muito levianamente o certo e o errado. Tenham cuidado, nem tudo é Física.
Ficamos neste hiato. Neste quase lá. Eu sei que há um mínimo, não sou pretensioso ao ponto de dizer que tudo está no zero. Mas não me mintam. Não se mintam. Não há projecto. Não há sonho. Há cultura, muita. Música de qualidade, escrita incrível, grande cinema. Mas não há política. Vivemos num mundo de destros que insistem em escrever com uma mão esquerda que nunca foi sua.
Um pouco mais de coragem camaradas, obriguemos os nossos espíritos a voar os seus próprios ventos! Não queremos ser os Últimos dos Homens, nem queremos que o abismo nos engula no seu olhar. E já que termino com Nietzsche, "o que é bom para mim, muito provavelmente não será bom para o outro".
Até breve
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